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Não perguntamos ao sol qual o sentido de sua existência. Ele não saberia o que dizer. Nenhuma palavra, nem mesmo sobre o seu próprio brilho. Ele está posto e desde seu próprio ponto de vista, isso é tudo.
Não perguntamos ao gato, deitado ao sol e rente à janela, qual o sentido de sua vida. Essa é para ele uma pergunta absolutamente estúpida, porque da vida ele só sabe de sua própria sonolência no instante da pergunta, e do sol que chega a ele como uma dádiva sem motivação ou objeto.
Quanto a nós mesmos, nos importunamos indefinidamente como os sentidos e as razões, com a lista de propósitos e a contabilidade dos êxitos. Somos, ao mesmo tempo, absolutamente miseráveis e arrogantes.
Por que a vida precisa ser justificada por algo exterior a ela mesma? O que nela falta, como vida que se vive, que demanda um excedente a ser produzido? Que exige uma perpetuação na obra, na fortuna, no monumento, na grana?
Nossa exuberância de vida, nossos excedentes vitais, não podem ser salvos para nosso próprio uso e legá-los não preservará o que fomos. Em poucas gerações, todo legado será desconectado da estrita pessoalidade de quem o produziu.
Volto ao sol e ao gato: o que de fato existe para nós é esse agora dos encontros, esse instante de contato e comunicabilidade. Qualquer presente empenhado ao futuro nos afasta dos encontros e nos insere em uma “economia das relações”.
Eu sei, é claro que é preciso haver um mínimo de prudência, de planejamento, de diferimento. O problema, no entanto, talvez não seja esse mínimo, mas o fato de que não o temos mantido como porção menor de nossas vidas.
Esse regime em que riqueza e escassez se condicionam mutuamente, no qual tudo deve ser salvo prudentemente para o futuro mais ou menos distante da fruição, nós torna necessariamente avaros com os outros e conosco.
Não temos tempo para o sol, como é o caso do gato; não há encontro, mas cenas; não há amizade, mas conveniências; não há exercício e sim performance. Tudo se transforma em uma espécie de matemática, que visa otimizar uma vida extensa, exemplar e produtiva.
Essa é a tragédia derradeira: a vida não é uma função complexa e não é matematizável. Ela é o contrário da matemática e escapa reiteradamente à regularidade e à previsibilidade.
É por isso que há vida de verdade onde há excesso sem excedente, onde há gratuidade e entrega incondicional, onde se doa fartamente porque, com a afirmação da vida em sua irrazoabilidade e desproporção, não há uma necessidade de prevenir que haverá de ser.
Algo sempre se apresentará, independentemente de vontades e cálculos, e não raro contra eles e suas expectativas de controle.
Não há maldade ou malícia, é apenas vida em fluxo, as forças em combate, para as quais tudo aparece e desaparece, sem o pressuposto do sentido ou da necessidade. A vida é inocente e indiferente a nossos tribunais que não cessam de julgá-la.