Foi Michel Foucault quem primeiro nos mostrou o ponto de virada dessa grande mutação: a passagem do antigo poder soberano — cujo privilégio consistia em fazer morrer e deixar viver — para o biopoder, obcecado em fazer viver e deixar morrer.
Nessa nova economia política do corpo, o sexo foi convocado ao centro do palco, incitado a falar e saturado de discursos para gerenciar a população, enquanto a morte, tornando-se o limite e a vergonha de um poder que promete gerir a vida, foi sumariamente escondida, privatizada e varrida do espaço público.
Trocou-se, assim, o salão de velas de Fritz Lang pela busca obsessiva por um combustível ininterrupto. Convertida em uma religião profana, a medicina preditiva e a cultura da securitização radicalizam a intuição foucaultiana: prometem o adiamento infinito do fim biológico por meio da governamentalidade e do cálculo estatístico.
Onde havia a sacralização do instante e o mistério da chama, vigora agora a contabilidade do risco. O corpo real, em sua opacidade e potência relacional no mundo, é fatiado e desmaterializado em um duplo digital — uma relação entre grandezas matemáticas onde a doença é lida como pecado de gestão individual e o imprevisto, como erro de sistema.
Se o espetáculo (Debord) e a hiper-realidade (Baudrillard) hiperexpoem o sexo e o consumo como simulacros de uma vitalidade sem frestas, é para manter a finitude devidamente sequestrada e burocratizada (Giddens, Agamben).
Mas a vida sob custódia permanente da ansiedade preventiva atinge o seu mais perverso paradoxo: no esforço de adiar a morte a todo custo, produz-se o congelamento do próprio ato de viver.
Ao tentar imunizar a carne contra o lance de dados da realidade, o sujeito contemporâneo transforma-se na larva que se fossiliza no próprio casulo de dados, trocando o transbordamento dionisíaco da existência pela pequenez de uma sobrevida asséptica.
Este ensaio é uma investigação sobre essas pretensões imunológicas da contemporaneidade. Trata-se de interrogar a arquitetura das nossas certezas técnicas e perguntar se a verdadeira sensatez antropológica e a dignidade ética — nos termos do Amor Fati de Nietzsche — não residem justamente em ultrapassar a muralha.
Recusar a servidão da vigilância contínua, rir da promessa de uma longevidade sem substância e tomar para si a causa do próprio tempo.
Pois no teatro das forças do cosmos, a grandeza de uma vida nunca foi medida pela duração da chama, mas pela coragem e intensidade com que ela aceita queimar.
Continua...