Os manequins sempre me pareceram um assunto imediatamente fotográfico, pelo simples fato de que, com a sua presença, simulam a vida.
A materialidade — resinas plásticas, louça, madeira, tecido etc. — faz com que os manequins se ponham como uma fantasmagoria visto que, pela forma, insinuam o corpo humano.
Quem percorre ruas comerciais especialmente à noite, quando a iluminação é menos intensa, vê as silhuetas embaralhadas pela luz e dificilmente pode afastar a ideia de que os habitantes das vitrines poderiam pôr-se a andar a qualquer momento.
Essa fantasmagoria de corpo e alma é da ordem da fotografia, justamente porque não raro nos parece que, entre as virtualidades da foto, algo irá saltar sobre nós, com uma voragem do além-mundo.
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Numa loja, na Rue Legendre, em Batignolles, toda uma série de bustos femininos, sem cabeça e sem pernas, com ganchos de cortina no lugar dos braços e pele de percalina de cor absoluta — castanho seco, rosa cru, negro forre —, alinham-se numa só fila, empalados em hastes ou apoiados sobre mesas ... O lhando esta estiagem de colos, este museu Curtius de seios, vislumbramos os porões onde repousam as esculturas antigas do Louvre, onde o mesmo corso eternamente repetido faz a alegria ensinada das pessoas que o contemplam, bocejando, nos dias de chuva... Quão superiores às insípidas estátuas das Vênus são estes manequins, tão vivos, dos costureiros...
J. K Huysmans, Croquis Parisiens, Paris, 1886, pp. 129, 131-132 (''"Cétiage" [A estiagem]), in Walter Benjamin, Passagens de Paris, p. 679
No slideshow a seguir, fotos de Bernard Chevalier