FLOR GARDUÑO
As imagens produzidas pela fotógrafa transitam de modo imediato pela tradição ameríndia e nos apresenta um mundo no qual as fraturas entre os reinos (mineral, vegetal e animal, humano e não-humano) estão completamente borradas. Essa compreensão foi amplatamente teorizada pelo antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.A radicalidade do pensamento ameríndio, segundo Eduardo Viveiros de Castro, encontra-se no seguinte fato — se a agência (a capacidade de agir) é universal e todos os seres são sujeitos em potencial, o conceito de "natureza" desaparece e é substituído por uma cosmopolítica.
O ecossistema não é um cenário biológico, mas uma arena social densamente povoada por diferentes nações (humanas e não-humanas) com suas próprias intencionalidades, desejos e exigências. Viver nesse mundo exige uma sofisticação diplomática constante, pois qualquer ação cotidiana tensiona essa rede de relações.
Essa política multiespecífica se manifesta de forma muito concreta em três instâncias:
A Caça como negociação
Na ontologia ocidental, a caça é uma atividade técnica de extração de recursos. No perspectivismo, ela é um ato de guerra ou uma negociação política de alta periculosidade.
O caçador não está apenas abatendo uma presa; ele está retirando um sujeito de sua própria comunidade (a sociedade dos porcos-do-mato ou dos macacos, por exemplo).
Se essa retirada não for negociada espiritualmente com os "chefes" ou "donos" daquela espécie, a comunidade agredida retaliará, enviando doenças ou acidentes ao caçador e à sua família. A predação é sempre recíproca.
O Xamã como diplomata
O xamã (pajé) não é um sacerdote religioso no sentido ocidental, mas um diplomata trans-espécies. Ele é aquele que possui a capacidade de desestabilizar os limites do próprio corpo para adotar temporariamente a perspectiva de outra espécie.
Quando o xamã entra em transe, ele viaja até as "casas" dos espíritos ou dos animais para negociar: pede permissão para a caça, barganha a cura de uma doença (que muitas vezes é vista como o sequestro da alma do humano pelos animais) ou estabelece tréguas. O xamã opera na fronteira entre as nações do cosmos.
Diplomacia e metamorfose
Toda relação com um não-humano exige o manejo cuidadoso da distância e da vizinhança. Como o outro também é um sujeito e vê a si mesmo como humano, há sempre o risco de o humano ser seduzido pela perspectiva do animal e perder a sua própria forma.
Se você passa tempo demais interagindo com os seres do rio sem a devida mediação ritual, você começa a ver o mundo como os peixes veem; seu corpo se transforma e você deixa de ser humano para os seus parentes.
A diplomacia ameríndia serve para garantir a comunicação com o outro sem que ocorra a dissolução de si mesmo.
Enquanto a política ocidental moderna se restringe ao contrato social entre humanos dentro de uma natureza muda, a política ameríndia é uma cosmopolítica que gerencia alianças, trocas e conflitos entre uma infinidade de coletivos dotados de intencionalidade.
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O Ocidente opera sob a lógica do Mononaturalismo Multicultural: assume-se que existe uma única natureza física externa (regida pelas leis da física e da biologia) e múltiplas interpretações culturais humanas sobre ela.
O perspectivismo inverte esse modelo, demonstrando que o pensamento indígena assume um Multinaturalismo Monocultural:
Monoculturalismo: todos os seres (humanos, animais, espíritos) compartilham a mesma cultura, o mesmo "espírito" ou humanidade reflexiva. Todos veem a si mesmos como humanos e vivem em sociedades com regras, casamentos e rituais.
Multinaturalismo: o que muda não é a representação do mundo, mas o corpo através do qual o mundo é visto. Os corpos são aparatos afetivos diferentes. O que para nós é sangue, para o jaguar é caldeirada de mandioca; o que para nós é um poço de lama, para as antas é uma grande casa cerimonial. Há uma multiplicidade de naturezas (corpos), não de culturas.