A obsolescência necessária
Mas nem tudo são flores e o produtor de conteúdo opera indefinidamente contra a “fadiga de material” que não pode evitar produzir.
Para ter sucesso, ele precisa encontrar meios e fórmulas, mas a reiteração leva à diminuição de interesse.
Aqui a lógica das redes é bastante perversa, porque a faz a fila andar impiedosamente. Se o produtor não gera mais o mesmo interesse, é hora de dar lugar a outro.
Assim, o algoritmo passa a entregar menos produção de quem está em baixa, e valoriza o que está em as ascensão.
Resultado: o capital duramente acumulado em termos de seguidores se mostra extremamente volátil, e o que era uma atividade econômica promissora vai água abaixo.
Essa dinâmica leva os produtores a um ritmo de trabalho absolutamente exaustivo e não é raro problemas significativos de saúde laboral.
Um fotógrafo independente, por exemplo, que divulgue seus serviços por meios de redes sociais tem que realizar sua atividade econômica principal — fotografar —, mas além disso produzir posts, stories, vídeo, textos e legendas etc.
Isso, mesmo que pague publicidade na rede, para divulgar sua atividade. E o pior de tudo: a conexão com o cliente é mediada pela plataforma, de tal maneira que não se é dono do patrimônio construído.
Um exemplo, entre muitos: uma influenciadora que ensinava usuários a reconhecer uso de inteligência artificial na produção de imagens teve sua conta banida de uma rede.
Eram aproximadamente 600 mil seguidores. Tudo virou pô e a influenciadora deu entrevistas indignadas, afirmando que sua vida foi colocada de cabeça para baixo. Sequer tinha meios para se sustentar sem a base de seguidores que perdeu.
Para entender essa realidade parece fundamental considerar que a economia das plataformas não tem por paradigma as redes sociais, mas sim as aplicações logísticas como a Uber.
Aqui a assimetria entre a aplicação tecnológica e o ser humano não é sob um formato dito “criativo”. Existe o aplicativo e aqueles que dirigem, entregam e conduzem por ele. A empresa dita as regras, que são mutáveis a seu próprio critério ao longo do tempo.
De outra parte, temos o trabalhador que se apresenta com a roupa de empreendedor sem alternativa, com seu veículo, tempo de trabalho e vida, remunerado não exatamente pelo esforço ou desgaste, como no regime de assalariamento, mas pela necessidade de fixar o usuário na plataforma.
As condições da corrida são aquelas que fazem com que o usuário não se destine a uma outra alternativa, seja pelo preço , seja pelas “comodidades”: 24 horas por dia, tão rápido quanto uma entrega em 15 minutos, tão certeiro quanto um míssil teleguiado, tão responsivo como uma troca de mensagens, tão submisso e subalterno quanto uma máquina.
O que induz a isso ou aquilo, à permanência como maior ou menor vantagem, é modulado pelas métricas da própria plataforma. Mais tráfego à noite, mais vantagens; mais rápido, melhor preço; mais arriscado, dado a velocidade, melhor paga.
Nada estável ou de estabilidade, nenhuma regra em relação contratual estrita, nada de direitos ou salvaguardas, apenas uma máquina de extração de vida em operação cada vez mais veloz.
Como os criadores e criativos se passa exatamente o mesmo, mas a relação aparece mediada por uma suposta necessidade ou dependência, de parte das plataformas, quanto ao conteúdo criado. Essa dependência — se e quando existente — é reduzida a pó pela própria lógica das plataformas.
Se algo está em alta, aumentam os criadores para surfar na tendência; se existe uma em baixa, todos são derrubados de suas supostas vantagens competitivas. Ocorre apenas uma mediação [talvez] a mais.
Em lugar de produzir conteúdo por si mesmas, as plataformas põem todos a trabalhar, vendendo a possibilidade de evidência e visibilidade, algo que pode eventualmente gerar um valor econômico que, no entanto, é necessariamente instável.
O criador, portanto, é uma espécie de motorista de Uber glamourizado, que é eliminado do jovo sempre e quando convém. Parece estranho? Observe-se, por exemplo, as mudanças das regras de monetização das plataformas. Elas já dizem tudo.