Mas acompanhemos um pouco mais longe a trajetória da fotografia. Que vemos? Ela se torna cada vez mais matizada, cada vez mais moderna, e o resultado é que ela não pode mais fotografar cortiços ou montes de lixo sem transfigurá-los.
Ela não pode dizer, de uma barragem ou de uma fábrica de cabos, outra coisa senão: o mundo é belo.
Este é o título do conhecido livro de imagens de Renger-Patzsch, que representa a fotografia da "Nova Objetividade" em seu apogeu.
Em outras palavras, ela conseguiu transformar a própria miséria em objeto de fruição, ao captá-la segundo os modismos mais aperfeiçoados.
[Walter Benjamin. Magia, técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas vol. 1, pp. 128-129]
* * *
A fotografia documental da Farm Security Administration (FSA) durante a Grande Depressão carrega uma promessa de neutralidade.
Sob a coordenação de Roy Stryker, o Estado capturou a miséria do campo para legitimar o New Deal.
A estética de Dorothea Lange, contrtada da agência governamental, opera nesses termos um esvaziamento da história real.
Ao isolar os corpos e focar no drama familiar, a lente apaga as causas estruturais da crise de 1929 e transforma o trabalhador expropriado em um monumento estático e estético.
O sofrimento perde a sua raiz econômica imediata e ganha contornos de uma tragédia cósmica. O colapso do capital é apresentado com a mesma inevitabilidade de uma tempestade de areia, restando aos sujeitos apenas a dignidade de suportar o fardo.
O olhar extra-campo
A marca formal mais problemática de Lange é a projeção do olhar dos retratados para o extra-campo.
Ao evitar os olhos do espectador e mirar o horizonte vazio, instaura-se uma atmosfera melancólica de pós-tormenta.
Esse vetor visual opera uma dupla negação histórica. O desamparo parece não ter causa humana.
A violência da expropriação bancária e a dinâmica do latifúndio são diluídas em uma condição existencial abstrata e intransitiva.
Para o público urbano que consumia as imagens, o olhar perdido eliminava o risco do confronto direto.
Não há acusação ou exigência política nas faces, mas uma passividade que convida à água morna da piedade e da filantropia liberal.