As fotografias de Diane Arbus (1923-1971) não pedem permissão; elas instauram uma crise. Mais de meio século depois, suas imagens de gigantes, nudistas e crianças sombrias ainda provocam incômodo.

Esse mal-estar nasce de uma ruptura radical: Arbus rasga o véu, que separa o freak do normal. Criada em uma redoma de privilégios na Quinta Avenida, para ela a normalidade não era um refúgio, mas uma asfixia. 

Como ela própria confessou, a sensação de estar imune à experiência era, por si só, dolorosa. Ao apontar sua lente para o proibido, não documentava o exótico; ela sabotava a assepsia que nos impede de encarar a crueza do real.

Nesse mergulho, Arbus operou uma inversão ética. Diferente do olhar caritativo ou do fotojornalismo humanista que busca despertar uma piedade higiênica, Arbus via em seus freaks uma força soberana.

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Para ela, esses indivíduos não eram vítimas das circunstâncias, mas "aristocratas" que já haviam atravessado o seu trauma original. Eles haviam sobrevivido ao abismo e, por isso, habitavam o mundo com uma autossuficiência que os "normais" desconheciam.