Walter Benjamin já havia feito o diagnóstico ainda em princípios do século XX, ou seja, escrita e leitura passavam por uma mutação com o advento da metrópole capitalista e da publicidade.
Da quietude do livro, até então lido habitualmente na horizontal, a o texto começa a se levantar, para ocupar a verticalidade das calçadas, com os cartazes, e na sequência o horizonte como um todo, com os outdoors.
A sinalização urbana faz parte desse processo também, considerado que eu seu conjunto o texto avança na direção de uma escrita indiciária.
A escrita indiciária
Escrita indiciária é todo registro visual, material ou espacial que não se limita a representar o mundo por meio de códigos abstratos ou convenções de linguagem, mas que se constitui como uma inscrição direta de uma força, de um corpo ou de um acontecimento sobre um suporte.
É a escrita cuja existência depende de uma relação de contiguidade física, causal ou contextual com a realidade, operando simultaneamente como um rastro do passado, um sinalizador que organiza o presente e um sintoma das forças invisíveis (históricas, econômicas ou psicológicas) que moldam o espaço e a cultura.
As três camadas articuladas
Para que a definição opere em sua totalidade, essas três camadas devem ser compreendidas como forças que atuam em conjunto na superfície do real:
Gênese material (o rastro)
É a marca física deixada pela ação mecânica, química ou biológica do mundo sobre a matéria. Não há mediação ou intenção de fala: a coisa acontece e o suporte registra.
Exemplos: a luz que queima o filme na fotografia analógica; o desgaste cavado pelos passos nos degraus de pedra de uma igreja; a caligrafia trêmula que trai o estado nervoso de quem escreve; a poeira acumulada sobre um móvel.
Vetorialidade espacial (o deítico)
É a escrita que atua como extensão do gesto humano de apontar. Ela não possui significado completo em si mesma; sua inteligibilidade está indissociavelmente ligada ao ponto exato do espaço ou do tempo em que foi fincada, gerando uma reação imediata no entorno.
Exemplos: A seta de sinalização urbana que só orienta se estiver naquele cruzamento específico; o painel publicitário vertical que intercepta fisicamente a linha de visão do pedestre; o totem que delimita uma fronteira.
Camada sintomática (o paradigma crítico)
É a inscrição involuntária de uma época, de uma estrutura social ou do inconsciente. Ocorre quando o analista (o historiador, o flâneur, o detetive ou o psicanalista) lê a superfície da realidade não pelo que ela enuncia conscientemente, mas pelas frestas, lapsos, sobras e detalhes marginais que revelam o funcionamento de uma engrenagem maior.
Exemplos: O outdoor comercial que funciona como sintoma da colonização mercantil sobre a arquitetura; o ato falho na fala; o detalhe anatômico automatizado e negligenciável na pintura que denuncia a identidade do falsificador.
O Olhar Indiciário
Em última análise, conceituar a escrita indiciária de forma larga implica deslocar o foco do conteúdo da mensagem para a natureza da sua presença.
Ler o mundo de forma indiciária é abandonar a busca por significados dicionarizados e passar a decifrar a realidade como um tecido de cicatrizes, vetores e sintomas, onde a matéria e a história se escrevem continuamente à revelia de suas próprias representações oficiais.
A "leitura da cidade"
Benjamin postulou, nesse contexto, que a cidade deveria ser lida como um livro, para que se possa compreender a sociedade mercantil que se desenvolve, especialmente a partir do século XIX.
A Paris do século XIX, que emerge no trabalho das Passagens é uma espécie de mudo em miniatura, composto essencialmente de forma indiciária, ou seja, perseguindo as pegadas, os rastros dos agentes que se põem nesse grande quadrante (mapa, diagrama, plano etc.) que é Paris como metrópole moderna.
Nesse sentido particular, Abbott se aproxima de Eugene Atget que, por sua vez, foi um fotógrafo estudado por Benjamin, inclusive em seus elementos procedimentais, como a ideia de fotografar a cidade como se ela fosse a cena de um crime — algo evidentemente muito presente na obra de Edgar Alan Poe
Em grande medida, Berenice Abbott é uma "leitora benjaminiana" da sociedade, ainda que não tenha qualquer parentesco ou proximidade com as concepções de Benjamin.
Uma constelação de leitores da metrópole do século XIX
Para dar maior consistência a nossa investigação, impõe-se considerar a concepção de montagem literária de Walter Benjamin a composição das pranchas de Aby Warburg, que se davam por "afinidade" e não pela cronologia.
Se considerássemos — como deriva — a tentativa de compor um prancha completa de Warburg sobre as tensões da metrópole moderna, Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire teriam que ocupar o topo ou o centro nervoso da montagem. Eles fornecem a matriz literária e psicológica de onde brotam os diagnósticos de Benjamin e os registros visuais de Atget e Abbott.
Se organizássemos a vizinhança dessas figuras na prancha, as conexões formais e indiciárias se dariam através de duas grandes linhas de força:
A Pathosformel da multidão e do choque
O coração da prancha seria a experiência do choque urbano — a reação do corpo e da mente ao bombardeio de estímulos da cidade.
Edgar Allan Poe (O Homem da Multidão, 1840): entraria na prancha através do texto ou de ilustrações do seu conto. Poe inventa o olhar clínico sobre a massa urbana.
O narrador, através da vidraça de um café em Londres, observa o fluxo verticalizado dos pedestres e começa a decifrá-los indiciariamente pelas roupas, pelos calos nas mãos, pelas marcas de expressão. É o nascimento do detetive urbano.
Charles Baudelaire (O Flâneur, 1857-1863): ficaria colado a Poe. Baudelaire traduz Poe para Paris e transforma o pedestre no flâneur — aquele que se submerge na multidão como quem entra num reservatório de energia elétrica.
Ele registra o choque do transeunte que quase é atropelado pelos cavalos, o impacto dos novos bulevares de Haussmann cortando os velhos bairros.
A Conexão Visual com Atget e Abbott: abaixo deles, as fotos de Atget mostrariam os pátios e as ruelas escuras por onde o flâneur de Baudelaire caminhava antes da reforma urbana.
Ao lado, as fotos de Abbott mostrariam o paroxismo desse choque: o pedestre em Nova York agora está esmagado na base de fendas de concreto, cercado pela publicidade que dita o seu percurso.
A Caligrafia da mercadoria e o rastro do crime
Outra zona da prancha conectaria a escrita urbana à mercantilização do espaço.
Baudelaire e os painéis de tecido: Baudelaire escreve sobre como os olhos modernos são capturados pelas "litografias da mercadoria" e pelas "caricaturas" nas vitrines. Ele percebe a cidade se transformando em um texto de venda.
Poe e a criminologia do espaço: o método de decifração de Sherlock Holmes (que fundamenta o paradigma indiciário de Carlo Ginzburg) nasce diretamente de Os Assassinatos da Rua Morgue de Poe. A cidade é um labirinto cheio de pistas falsas e verdadeiras.
A Conexão semiótica: nessa seção da prancha, colocaríamos os letreiros comerciais de Berenice Abbott e as vitrines de manequins reflexivas de Atget ao lado de versos de As Flores do Mal.
A publicidade verticalizada que Benjamin teorizou em Rua de Mão Única ganha aqui sua genealogia histórica: ela é a evolução técnica do letreiramento urbano que Baudelaire já via começar a cobrir Paris e que Poe usava como cenário para seus mistérios analíticos.
Colocar Poe e Baudelaire nessa prancha é explicitar o inconsciente ótico da modernidade. Eles escreveram os sintomas que Atget e Abbott fotografaram e que Benjamin e Warburg transformaram em método crítico.